Fatos Marcantes da Revolução

1817. A República no Brasil começou assim.

A bandeira de Pernambuco é parte dessa história.

O plano para trazer Napoleão Bonaparte para Pernambuco.

O maracatu foi liberado de circular pelas ruas.

A reação da monarquia.

A Revolução chega ao fim, mas a luta continua.

A bandeira

A Bandeira de Pernambuco é um dos nossos maiores símbolos. Ela foi idealizada pelos revolucionários de 1817 e oficializada, anos depois, pelo governador Manuel Antônio Pereira Borba (1915-1919).
Aprenda o que cada símbolo significa.

A história

Em 6 de março de 1817 eclodiu no Recife, Pernambuco, uma revolução republicana. Este movimento é um dos capítulos mais importantes da história do Brasil. Além de Pernambuco, a nova república recebeu também o apoio da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de parte do Ceará. A Revolução Republicana de 1817 se destaca não só por ter sido o primeiro movimento efetivo no sentido da independência do Brasil, mas também por que foi a única insurreição anticolonial que conseguiu tomar o poder em toda história da monarquia portuguesa. O novo país foi soberano durante 74 dias.

A província de Pernambuco, por aquela época, se encontrava pesadamente sobrecarregada de tributos. Boa parte do que se arrecadava no porto do Recife era transferido para cobrir os custos crescentes da corte do rei Dom João VI, que havia se instalado no Rio de Janeiro desde 1808. A monarquia absolutista era o alvo das críticas dos pensadores iluministas. As ideias libertarias já haviam detonado movimentos como a independência dos EUA, a Revolução Francesa e a Revolução do Haiti, todos com profundo impacto no cenário político latino-americano. Em Pernambuco, estas ideias chegavam com os estudantes universitários que retornavam da Europa ou em publicações que circulavam clandestinamente. As lojas maçônicas funcionavam como difusoras do ideário ilustrado. O Areópago de Itambé e as Academias do Paraíso e do Cabo, eram alguns deste locais de reuniões secretos onde se conspirava pela liberdade.

O movimento contava com articulações em diversas províncias do Brasil, inclusive na Bahia e no Rio de Janeiro, e também tinha conexões com a maçonaria na Grã-Bretanha, Portugal e França. Os planos vinham sendo preparados há tempos e apontavam um levantamento conjunto na semana santa de 1817. Mas o início da insurgência foi precipitado por acontecimentos ocorridos no Recife. O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro, após receber várias denúncias, resolveu decretar a prisão de alguns dos civis, militares e clérigos apontados como cabeças da Revolução. Entre eles podemos destacar o comerciante Domingos José Martins, o Padre João Ribeiro Pessoa de Melo e os militares Domingos Teotônio Jorge e José de Barros Lima, o Leão Coroado. No momento da prisão do Leão Coroado, no Quartel de Artilharia, ele reagiu à ordem e matou o seu comandante, o Brigadeiro Barbosa. Os militares então saíram do quartel, libertaram os presos da Cadeia Pública e no Forte das Cinco Pontas e saíram no encalço do governador que se refugiou no Forte do Brum.

No dia 7 de março formou-se um governo provisório composto por cinco representantes dos diversos setores da sociedade local: Domingos José Martins (Comércio), Domingos Teotônio Jorge (Militares), Padre João Ribeiro (Clero), José Luís de Mendonça (Magistratura) e Manuel Correia de Araújo (Agricultura). O governo provisório tomou várias providências legais para garantir os direitos da cidadania e as liberdades individuais. Enquanto não fosse possível reunir uma assembleia constituinte, a república seria regida por uma lei orgânica com 28 artigos. Essa lei definia os princípios básicos do funcionamento do governo e dava, entre outras coisas, garantias da liberdade de imprensa e de religião. A nova república aboliu o uso do pronome de tratamento “vossa mercê”, estabelecendo que os cidadãos deveriam se tratar por “vós” ou por “patriota”. Os revolucionários de 1817 desejavam ainda abolir a escravidão gradualmente, uma precaução necessária para um movimento que dependia do apoio de grandes proprietários de escravizados.

O governo provisório enviou para os Estados Unidos um representante diplomático, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá. A missão de Cruz Cabugá era adquirir armamentos e embarcações, recrutar oficiais militares para comandar as tropas pernambucanas e conseguir apoio do governo norte-americano. Num segundo momento, trataria de encontrar meios para resgatar Napoleão Bonaparte do exílio na distante ilha de Santa Helena. Os primeiros objetivos foram alcançados, embora ao chegarem a Pernambuco, os reforços enviados por Cabugá já encontraram a república derrotada.

Uma outra providência foi a criação de uma bandeira para o novo país. Ela era composta por um fundo azul e branco. Sobre a faixa azul, figuravam um arco-íris (símbolo da união), três estrelas (representando Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte) e o sol da liberdade. Sobre a faixa branca, uma cruz vermelha fixava o catolicismo como religião de Estado. Em 1917, por sugestão do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano – IAHGP, a bandeira revolucionária de 1817 foi adotada como bandeira do estado de Pernambuco, mediante decreto do então governador Manuel Borba. Fez-se uma pequena alteração, mantendo-se apenas uma das três estrelas originais.

As falhas na organização da defesa militar do território e as próprias contradições internas da Revolução, especialmente no que dizia respeito ao destino das populações escravas, facilitaram a repressão do movimento. Tropas oriundas por terra da Bahia e embarcações enviadas do Rio de Janeiro bloquearam o Recife. A falta de alimento e os seguidos fracassos nos combates feriram de morte a Revolução. No dia 19 de maio as forças realistas entraram no Recife. O governo provisório dispersou-se. Os líderes e os participantes da Revolução foram aprisionados. Os principais chefes foram executados com requintes de crueldade no Recife e em Salvador. Quase todas as famílias pernambucanas entraram em luto pela perda de entes queridos.

Os ideais de liberdade, ética e defesa do direitos cidadãos propugnados pelos revolucionários de 1817 continuam vivos e mais do que nunca são necessários. Celebrar o Bicentenário da Revolução de 1817 é também relembrar que a importância destes valores para os nossos dias. Conhecer nossa história é essencial para a compreensão dos problemas atuais e para a construção de uma nação melhor, o desejo que moveu os líderes pernambucanos a darem suas próprias vidas na luta pelos seus ideais.

Autor

George F. Cabral de Souza

  • – Doutor em História pela Universidade de Salamanca;
  • – Professor de História da UFPE;
  • – Presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano – IAHGP.

Mapa da Revolução